Tuesday, September 05, 2006

Quando o telefone toca

Parece que o tema do programa era o futebol português. Não sei bem porque o comecei a ver já ele a meio. Programa num canal público, convém recapitular. Quatro estátuas da Ilha de Páscoa que passaram a maior parte do tempo a falar do caso Mateus; os mesmos argumentos dos últimos dias. A certa altura Valentim Loureiro resolveu referir que o presidente do galinheiro lhe tinha dito algo diferente do que agora anda aí a apregoar: ou seja, mais uma daquelas tricas onde o único aspecto relevante a retirar é a constatação de que as tais conversas de bastidores que todos negam afinal existem. Passado um pouco a apresentadora diz que tem uma pessoa ao telefone que solicita a entrada em directo no programa. E eis que entra de viva voz o presidente do galinheiro, dizendo que ligou para desmentir o que ali tinha sido dito sobre ele. Eu ainda pensei que ele fosse aproveitar o tempo de antena para explicar aos cavalheiros de Barcelos como é que se inscrevem jogadores em situações complicadas, aproveitando a experiência que por certo adquiriu com a inscrição do Ricardo Rocha. Mas não. Começa a falar – respeitosamente toda a gente se cala para ouvir o tal “convidado” – e da intervenção apenas deu para perceber que afinal tudo o que Valentim havia afirmado era verdade. O que até deu para que Valentim terminasse à gargalhada a conversa com o tal convidado espontâneo, exibindo um ar triunfante. Os figurantes batem palmas e o circo prossegue.
Pouco me interessa que o presidente do galinheiro tenha sido desmentido em directo. Isso nem o deve incomodar porque ele não tem muita vergonha na cara, assunto que é lá com ele e com os da laia dele. O que eu questiono é a legitimidade daquela intervenção. A apresentadora tratou logo de defender a cara (a sua e a da empresa para a qual trabalha), dizendo que apenas tinham posto aquela intervenção no ar porque se tratava de uma pessoa cujo nome havia sido referido no programa. Mais valia ter estado calada. Um argumento destes não justifica nada. Ou será que é política da RTP permitir uma intervenção em directo a uma pessoa, sempre que o seu nome é referido? Não sou espectador do programa mas não me parece que essa seja a norma. Se assim fosse, o Mateus himself, teria tido 30 minutos, no mínimo, para dizer como é que gosta da muamba bem como para nos avançar uma detalhada explanação acerca do ressonar de Mantorras, seu colega de quarto durante o Mundial da Alemanha. O que até era capaz de ter mais piada do que a intervenção do homem que diz ter um "dossier com o nome das pessoas ao lado das quais não se vai sentar". Esta justificação não passou afinal de uma desculpa mal amanhada para legitimar uma intervenção despropositada de alguém que, achando-se acima da lei pelo facto de ser presidente de um determinado clube, tratou de exigir. É certo que ele podia ter entrado por ali dentro como já o fez num outro programa, noutro canal. E a RTP arriscou-se a isso uma vez que a emissão até é gravada num local muito próximo do estádio do galinheiro. Dado o adiantado da hora, ficou-se pelo telefone. Aquela cena não passou de um acto de subserviência do canal público a um determinado indivíduo. Sem nada que o justificasse. O que é editorialmente lamentável.
Mas enfim, o homem anda em maré de azar. Foi a um canal de televisão dizer que ia à sede de um jornal fazer o director “engolir aquilo que tinha publicado”. Chega ao jornal, passado umas horas sai de lá mansinho e no dia a seguir o jornal reafirma tudo o que tinha suscitado a tal deslocação. Agora arma-se em mau, telefona para um programa, debita umas baboseiras sem interesse e ainda tem direito a humilhante despedida com aplausos da plateia à sarcástica gargalhada com que Valentim o tinha calado. É caso para se dizer: um presidente à altura da instituição que dirige.

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